segunda-feira, 15 de março de 2010

Sábado de março

Voltei no ônibus errado!
Dobrei o tempo de chegada em casa, estava com sono, sem muita paciência e com vários fragmentos de idéias assombrando meu ser.
Nenhuma merecia o esforço ou nenhuma tinha se esforçado o suficiente para tornar-se inteira.
Um senhor de idade no ônibus puxou papo comigo como se me conhecesse.
Apontou a poltrona do lado e me sentei no lugar indicado.
Era um agricultor, chamamos de colono aqui, daqueles que falam pouco em português e misturado com o alemão.
Quando perguntei para o cobrador o preço da passagem, o vovô me interrompeu e disse que tinha que pagar à vista. Ri para ele e disse que tinha esquecido o talão de cheque em casa.
Teria que pagar à vista mesmo.
Acho que pagar à vista e dizer o quanto pagou tem a ver com a herança destes colonizadores,
algo que mostra dignidade de um povo sofrido, uma certa honra.
Já vi isso noutras ocasiões.
Por estas e outras que a cidade é considerada a capital nacional do suicídio.
Meu pai conta que muitos pais de família que não honravam as contas prefiriam a corda no pescoço do que viver individados. E ver o sofrimento nos rostos dos filhos...
Dignidade dramática.
O vovô do ônibus falou sobre o tempo, brincou com o cobrador novamente e me mostrou o rádio portátil que tinha comprado na “cidade grande”!
Não me mostrou com palavras. Ele segurava o objeto ainda dentro da caixa com um orgulho tão grande que comecei a admirá-lo também.
Aposto que comprou à vista.
Quase senti a necessidade de ter um rádio igual, ficar em uma varanda imaginária vendo o tempo passar acompanhada das notícias de um mundo distante.
Confortávelmente longe.
Não consegui ignorar a conversa com o vovô, mesmo vendo umas caras feias olhando para a nossa direção.
Muito menos contrangê-lo com um “Tu me conhece”?
Um véu de censura pairava num ambiente impróprio para criar relações, muito menos relações com velhos agricultores, com chinelo de dedo e pés sujos.
Gosto de conversar com idosos.
E quando algum senhor ou senhora puxa papo comigo, logo penso na solidão que um dia posso sentir.
Na solidão alheia. E na imensidão de coisas que estas pessoas já viveram e poderiam me contar/dividir.
Me sinto escolhida por algum motivo nobre, sem saber como me comportar.
Imagino uma página no momento de passar para outra, o barulho das folhas,
algo que aos poucos vai ficando para trás.
Ele se despede.
Continuo até a cidade sentindo sono, sem muita paciência e com vários fragmentos de idéias assombrando meu ser.
Mas, com o coração apertado por algo que não sei o nome.

3 comentários:

  1. se não tenho o dinheiro, espero juntar para comprar à vista. a prazo sempre me pareceu ilusão, desde criança.

    falando com velho, a gente aprende.

    falando com criança, a gente duvida se sabe lá alguma coisa.

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  2. e a vida é linda mesmo... sempre nos dando a chance de aprender um tantinho a mais....

    adoro esses "encontros' do acaso...

    beijos carinhosos

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  3. Sobre a relação de suicídios e dívidas dos "colonos" acredito que hoje essa verdade seja de apenas uns 20%, o comércio me ensinou isso.
    Quanto ao resto, ótimo post.

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Como assim?