Uma definição para este momento de
pensamentos chuviscaralhados:
Para-raio de malucos.
Não passa muitos dias sem que encontre algum desconhecido na rua e aconteça uma situação no mínimo engraçada.
Gosto de caminhar e observar as pessoas.
Tanto aos desconhecidos que sempre passam por mim
quanto os que nunca vi.
Imagino destinos, traço perfis, coisa de maluco, mas, assim passo meu tempo.
E não só passo. Rola um feedback.
Respondo um oi que tenho certeza que a pessoa deu errado,
discuto o tempo com senhorinhas idosas que não me conhecem, afinal,todo mundo quer conversar e ser ouvido. Gosta, né?
Eu gosto. E fico imaginando como é não ter isto...
Dou conselhos, informações sobre onde fica tal lugar, enfim, já aconteceram coisas bizarras
e engraçadas e que não cabem neste relato. Talvez, noutra ocasião.
A razão desta narrativa são dois momentos que aconteceram esta semana.
#1
Segunda-feira, vi um conhecido do tempo de colégio caminhando com as duas filhas.
São uns pedaços de gente.
Uma deve ter dois anos e a outra deve ter a metade.
A primeira, já fala e caminha e a outra parece que aprendeu a caminhar faz pouco tempo.
Anda naquele estilo bêbado, um passo pra frente/equilíbrio/ gravidade puxa
para um lado/para outro/ engata a primeira e tenta outro passo.
Parece que a fralda pesa na bunda e puxa pra trás. Acho uma graça.
Eu, com medo de que alguém desconfie o quanto sou bizarra e observadora,
caminhava do outro lado da calçada, fingindo estar despreocupada e
com aquele ar blasé/ nariz empinado/múmia do cotidiano.
Espichava o olhar e via ele caminhar com as duas.
Breves parênteses.
[Homens cuidando de crianças
ativam um instinto aprimorado,
dizem que,
pela genética.
Quem dizem que?
Não sei. Dizem que e ponto.
Por algum motivo é interessante.]
Segurava a maiorzinha pela mão e a outra vinha atrás caminhando daquele jeito.
Não tinham caminhado 5 metros a pequena parou.
Estava faltando algumas lajotas na calçada devido ao reparo no esgoto.
Já fecharam o buraco, mas, por algum motivo abstrato, “esqueceram” de arrumar como estava antes.
A pequena parou e o pai e a irmãzinha continuaram, estavam indo na loja do lado.
Ela ficou ali... Parada. Não querendo pisar na areia, com beiço e olhando o pai e a irmã se distanciarem.
Olhava o chão, olhava o pai. Assim foi algumas vezes.
Parecia um pequeno desastre. Dois continentes se separando.
Aquela imagem pareceu durar muito mais tempo que durou.
Mas, se demorasse mais um pouco seria obrigada a gritar pro fulano.
Logo ele viu e chamou ela.
- Pode pisar aí, filha. Vem!
Ela esperou... Colocou um pé primeiro, depois o outro e seguiu junto com eles.
Então, voltei à normalidade blasé.
# 2
Outra criança, outros dias.
Passo pela rodoviária no percurso casa/trabalho e sempre vejo uma mãe sair deste lugar em direção a cidade.
Traz consigo uma menina com uns quatro anos de idade com Síndrome de Down.
A guria é linda, uma princesa mesmo. Dá vontade de pegar no colo, beijar, morder, apertar.
Sempre sorridente e falante.
A mãe tem a aparência dos colonos da minha região.
Aparência de quem trabalha muito na lavoura,
imagino o que ela deixa lá no interior, a vida que leva.
Ainda assim, sempre observo a mesma agindo atenciosamente com a filha.
Já vi mães de crianças especiais não terem toda esta paciência.
Há algo mais ali entre elas. Amor mesmo e fico feliz em notar isto.
A menina é uma doçura e merece todo carinho do mundo.
Não que exclua os pestinhas da classe “atenção”, enfim...
Hoje de meio-dia passei pela mulher e a pequena.
Olhei de canto e voltei ao ar blasé pelos mesmos motivos já expostos.
Quando vi que a princesa apontou para mim.
Pensei: Vixi lá vem bomba. Criança é o ser mais sincero e sem meias palavras que conheço.
Lá vem bomba.
Outros parênteses.
[Este ano ainda, andando nas mesmas condições e blá blá blá,
vi dois guris caminhando na minha direção, voltavam da escola e cochichavam.
Riam cúmplices de algo. Quando passaram por mim, um deles mostrou a língua.
Não pensei duas vezes em mostrar a minha para eles.
Só que me faltava: Levar desaforo para casa!
Nestas horas, a vantagem de ser adulta é justamente agir como criança
com crianças e não apanhar ou ser excluída na escola.
Óbvio que uso isto ao meu favor.]
E a bomba veio:
- Mãe, ohh, moça bonita!
A mãe riu, disse que sim e continuaram conversando.
Eu ri em resposta e segui o caminho.
Continuei, porém, paralisada.
Que bomba.
Meu coraçãozinho foi triturado num moedor de pimenta.
Não me lembro de ultimamente ter ouvido um elogio tão despretensioso ou algo tão sincero assim.
E nem vou me esquecer tão cedo.
Segue a noite chuvosa.