Na maioria das cidades do Rio Grande do Sul as mínimas foram negativas. Todos já sabíamos disto e ainda vem mais frio.
E não há nada que deixe o dia mais lindo e agradável que um baita frio, céu sem nuvens e sol gentil.
Fui para o trabalho escutando Vitor Ramil, aliás, para alguém que não está acostumado com estes costumes poderia dizer:
- Olha li, uma menina sem pescoço. Ela parece um pinguim!
Além dos blusões com gola alta e uma manta em volta do pescoço, havia tantas camadas de roupa que meus braços não encostavam direito no restante do corpo. Realmente teria que concordar com esta pessoa.
No começo da semana, com o cair da temperatura, resolvi fazer um post sobre esta paixão: Frio.

Não é nenhuma novidade, mas queria algo que representasse bem o que isto significa de verdade.
Acabei encontrando um material muito interessante sobre o tema e que ilustra da melhor maneira possível o que o frio representa.
Falo do ensaio A estética do frio (1992), do compositor, instrumentista, cantor e escritor, Vitor Ramil, que foi apresentado numa conferência em Genebra, no Teatro St. Gervais, no dia 19 de junho de 2003.
Antes de continuar a leitura dos meus devaneios, leia um trecho do ensaio aqui.
Fiquei tão emocionada que foi inevitável buscar o álbum Ramilonga, a Estética do Frio (1997) do referido artista.
Milongas gaúchas e castelhanas com instrumentos africanos, ora indianos, ora sem nome [!?], que fazem algo “tão daqui” tornar-se uma arte universal.
Vitor conseguiu mesclar a cultura representada na música, na literatura e nos costumes do povo do sul, do Uruguai e Argentina. Mais do que isto...
Conseguiu definir o frio como algo que identifica e diferencia o povo gaúcho dos outros povos e mesmo do povo do país em que está inserido.
O frio é nossa identidade, nossa face!
Há melhor maneira de representar o que me faz sentir tão bem em dias assim?
E deste modo, ele próprio cita o escritor argentino Jorge Luís Borges: “a arte deve ser como um espelho que nos revela a própria face”.
Estranho reconhecer que mesmo sabendo quem é Vitor Ramil, sua importância até então, foi algo abstrato, ele lá, eu aqui.
Reconhecimento que ele já possui lá fora, o produtor londrino ( John Armstrong) disse, em certa ocasião : “Why hasn’t this genious dominated the world of music yet?”
Obrigada,Ramil! O frio realmente é o definidor do nosso rigor e faz parte do processo de como vemos o mundo.
Se a justificativa é dizer que o frio é psicológico, agora tenho certeza que o mesmo faz parte do nosso psíquico.
Milonga de Sete Cidades (a Estética do Frio)
Vitor Ramil
Fiz a milonga em sete cidades
Rigor, Profundidade, Clareza
Em Concisão, Pureza, Leveza
E Melancolia
Milonga é feita solta no tempo
Jamais milonga solta no espaço
Sete cidades frias são sua morada
Em Clareza
O pampa infinito e exato me fez andar
Em Rigor eu me entreguei
Aos caminhos mais sutis
Em Profundidade
A minha alma eu encontrei
E me vi em mim
Vitor Ramil
Que venha o sábado e domingo!
Com muito chimarrão, pelego macio, fogão a lenha e cobertor de orelha.