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terça-feira, 5 de junho de 2012

O homem é o lobo do homem.*


"Frio. Escuro. Abro os olhos até sentir ardência. Não vejo nada. 
Nenhum fiapo de luz, tão pouco vulto que denuncie objetos no lugar, pessoa ou saída.
Dou um passo e sinto os joelhos dobrar como se fosse cair num precipício, não há diferença. Coração na boca e arrepios.
Mais alguns passos e chego numa parede. Apalpo a superfície fria e não descubro porta ou janela.
Desespero.
Tento voltar ao ponto em que acordei. Que tamanho é a sala? Imensidão ou estou ficando louca?
Quero gritar, tenho medo.
Giro e me posiciono para outro lado. Escutei uma respiração, não pode ser a minha.
Alguém respirando fundo, calmo.
E tudo acontece muito mais rápido que poderia pensar ou me movimentar, quanto tempo duraria uma briga, uma tentativa de defesa na escuridão de nanquim?
Sinto a respiração mais perto, braço imobilizando meu pescoço e a dor fria.
Com certeza, uma faca ou qualquer lâmina que acaba de se encaixar embaixo das minhas costelas.
Não há bravura nem final feliz. Apenas me entrego ao sono da morte, ao posso que sou embalada pelas palavras do meu algoz, canção de ninar ao pé do ouvido:
- Bom-dia, somente mais um dia como outro qualquer."


*Título da postagem cedido pelo Thomas Hobbes. 
Te devo uma cerveja, meu velho. 

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Pensamentos chuviscaralhados



Uma definição para este momento de
pensamentos chuviscaralhados:


 Para-raio de malucos.


 Não passa muitos dias sem que encontre algum desconhecido na rua e aconteça uma situação no mínimo engraçada.


Gosto de caminhar e observar as pessoas.
Tanto aos desconhecidos que sempre passam por mim
quanto os que nunca vi.
Imagino destinos, traço perfis, coisa de maluco, mas, assim passo meu tempo.
E não só passo. Rola um feedback.


Respondo um oi que tenho certeza que a pessoa deu errado,
discuto o tempo com senhorinhas idosas que não me conhecem, afinal,todo mundo quer conversar e ser ouvido. Gosta, né?

Eu gosto. E fico imaginando como é não ter isto...


Dou conselhos, informações sobre onde fica tal lugar, enfim, já aconteceram coisas bizarras
e engraçadas e que não cabem neste relato. Talvez, noutra ocasião.


A razão desta narrativa são dois momentos que aconteceram esta semana.


#1


Segunda-feira, vi um conhecido do tempo de colégio caminhando com as duas filhas.
São uns pedaços de gente. 
Uma deve ter dois anos e a outra deve ter a metade.
A primeira, já fala e caminha e a outra parece que aprendeu a caminhar faz pouco tempo.
Anda naquele estilo bêbado, um passo pra frente/equilíbrio/ gravidade puxa
para um lado/para outro/ engata a primeira e tenta outro passo.
Parece que a fralda pesa na bunda e puxa pra trás. Acho uma graça.


Eu, com medo de que alguém desconfie o quanto sou bizarra e observadora,
caminhava do outro lado da calçada, fingindo estar despreocupada e
com aquele ar blasé/ nariz empinado/múmia do cotidiano.


Espichava o olhar e via ele caminhar com as duas.

Breves parênteses.


[Homens cuidando de crianças
ativam um instinto aprimorado, 
dizem que, 
pela genética. 
Quem dizem que? 
Não sei. Dizem que e ponto. 
Por algum motivo é interessante.]


Segurava a maiorzinha pela mão e a outra vinha atrás caminhando daquele jeito.
Não tinham caminhado 5 metros a pequena parou.
Estava faltando algumas lajotas na calçada devido ao reparo no esgoto.
Já fecharam o buraco, mas, por algum motivo abstrato, “esqueceram” de arrumar como estava antes.
A pequena parou e o pai e a irmãzinha continuaram, estavam indo na loja do lado.
Ela ficou ali... Parada. Não querendo pisar na areia, com beiço e olhando o pai e a irmã se distanciarem.
Olhava o chão, olhava o pai. Assim foi algumas vezes.
Parecia um pequeno desastre. Dois continentes se separando.
Aquela imagem pareceu durar muito mais tempo que durou.
Mas, se demorasse mais um pouco seria obrigada a gritar pro fulano.
Logo ele viu e chamou ela.
- Pode pisar aí, filha. Vem!
Ela esperou... Colocou um pé primeiro, depois o outro e seguiu junto com eles.


Então, voltei à normalidade blasé.


# 2


Outra criança, outros dias.


Passo pela rodoviária no percurso casa/trabalho e sempre vejo uma mãe sair deste lugar em direção a cidade.
Traz consigo uma menina com uns quatro anos de idade com Síndrome de Down.
A guria é linda, uma princesa mesmo. Dá vontade de pegar no colo, beijar, morder, apertar.
Sempre sorridente e falante.
A mãe tem a aparência dos colonos da minha região. 
Aparência de quem trabalha muito na lavoura,
imagino o que ela deixa lá no interior, a vida que leva.
Ainda assim, sempre observo a mesma agindo atenciosamente com a filha.
Já vi mães de crianças especiais não terem toda esta paciência.
Há algo mais ali entre elas. Amor mesmo e fico feliz em notar isto.
A menina é uma doçura e merece todo carinho do mundo.
Não que exclua os pestinhas da classe “atenção”, enfim...
Hoje de meio-dia passei pela mulher e a pequena.
Olhei de canto e voltei ao ar blasé pelos mesmos motivos já expostos.
Quando vi que a princesa apontou para mim.
Pensei: Vixi lá vem bomba. Criança é o ser mais sincero e sem meias palavras que conheço.
Lá vem bomba.
 Outros parênteses.


[Este ano ainda, andando nas mesmas condições e blá blá blá, 
vi dois guris caminhando na minha direção, voltavam da escola e cochichavam. 
Riam cúmplices de algo. Quando passaram por mim, um deles mostrou a língua.   
Não pensei duas vezes em mostrar a minha para eles.
Só que me faltava: Levar desaforo para casa!
 Nestas horas, a vantagem de ser adulta é justamente agir como criança 
com crianças e não apanhar ou ser excluída na escola. 
Óbvio que uso isto ao meu favor.]


E a bomba veio:
- Mãe, ohh, moça bonita!
A mãe riu, disse que sim e continuaram conversando.
Eu ri em resposta e segui o caminho.
Continuei, porém, paralisada.
Que bomba.
Meu coraçãozinho foi triturado num moedor de pimenta.
Não me lembro de ultimamente ter ouvido um elogio tão despretensioso ou algo tão sincero assim.


E nem vou me esquecer tão cedo.


Segue a noite chuvosa.