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quarta-feira, 18 de março de 2009

333







Marieva passou pela porta 3 vezes, contava os passos até a mesa do café, do almoxerifado até a sala para a árvore sem nome. Do banheiro até a volta para a sala.
Era uma questão de números. Contar e dar nova chance ou deixar o tempo passar.
Mas, refazer 3 vezes o óbvio já não passava sua agonia.

Já tinha decidido, foi ano passado? 3 anos atrás? Ou foi antes do aniversário de 3 anos da pequena Olivia?

Às vezes duvidava que o que contava acontecia mesmo.
Lembrou do comentário no salão de beleza. Não ia com frequencia e talvez diminuísse depois da última vez. Uma jovem senhora contou como descobriu q seu marido tinha uma amante. Fazia 3 anos.
Ela reclamava q ele estava distante, por sua vez, ele fazia o diagnóstico. Ela estava louca.
E ela acreditou. Foi no médico, tomou remédios para a depressão, aumentou as doses, tomou outros remédios para conseguir dormir, outros para conseguir acordar.
Até que pegou o sacana com a mão na massa. Ele não teve mais como negar. 3 anos com outra.
Marieva até hoje imagina o que ela viu.
A senhora não contou e Marieva ficou com vergonha de perguntar e mostrar que não estava lendo uma revista e sim olhando pelo espelho.
Sua agonia, sua juventude apagada e a tinta amarela demais no cabelo.
Ela não estava louca. Maldito...
Voltou a imaginar...sempre cenas diferentes...
Sentia tesão em descobrir dois corpos ofegantes na cama, alívio por não ser louca e mais tesão. Dois corpos, duas manchas vermelhas no lençol.

Voltou do devaneio. Sentiu pena dela.
Estava rindo, contando como estava tentando dar a volta por cima.
Voltou do devaneio.
“Talvez eu não seja louca também.
Na verdade foram 3 vezes que passei pela porta da cozinha.”




Parou de repetir os passos.
"Maldito... enlouqueceu ela."

Voltou para o relatório.
“De hoje não passa.
De hoje não passa.”

Não sentia mais medo nem receio da loucura.

"Cada um paga por seus prazeres e por seus desprazeres."
Foi num bar que tinha dito isto...não conseguia lembrar o que estava tomando.

Alguém estava chamando pelo telefone, ramal interno.
Se tivesse sorte no Poker, apostava todas as fichas nisto.
Ramal 301.

Só podia ser.
“De hoje não passa.
De hoje não passa.”

Abriu meio sorriso antes de atender e suspender o sim.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Mais um conto inacabado...





Enquanto voltava pela rua de baixo, ainda perto do pernoite, sentia o cheiro agridoce de sexo na sua boca. Gostava de mulheres desesperadas, quase saiu de graça, se não fosse a quantia de pó que teve que comprar antes. Boa isca. Compensava cada tapa que dava depois. De onde vinha, avistava as torres da Igreja Matriz, iluminando as cercanias e jogando uma áurea do divino pela cidade. Pediu perdão e riu usando o canto da boca. Assassino é aquele que não acredita na redenção de sua alma. Parou ainda um instante antes de cruzar a Avenida Ruperti Filho para acender outro cigarro. Atendia por Moisés, o nome não importa agora e se importasse mesmo assim não poderia dar garantia que este foi o nome verdadeiro dele, mas foi impossível não associar ao Antigo Testamento.

Foi com um esbarrão que tomou conhecimento dela. Até 3 segundos depois, achou que tinha esbarrado num fantasma ou em uma corrente de ar. Não. Parecia com um soco no concreto.

Como uma mulher tinha conseguido passar despercebida por ele? Ainda mais uma delícia como esta. Era ele que chegava de surpresa. O fator risco que lhe dava tesão.

- Oi, doçura. Toma mais cuidado onde anda. Quase caiu nos meus braços.

Não recebeu resposta. Mas não era medo que via nos olhos dela nem reprovação. Resolveu arriscar, aproximou-se dois passos... Em seguida, tudo aconteceu com extrema precisão e vertiginosamente devagar para Moisés. Viu a estranha sacar uma espada, sentiu perfurar o ombro esquerdo descendo pela barriga, até passar pelo lado direito do quadril. Não era dor e mesmo que depois pudesse definir, não teria palavras pra isto, sentiu pânico e isto cegou a percepção dos outros sentidos. Como uma bailarina, ela manejou outra espada, algo parecido com madeira e estalou com pressão em sua clavícula.


Sua última lembrança se apagando como borbulhas em um copo de champagne foi o seu corpo caindo para dois lados opostos. Caso tivesse outra pessoa naquela hora, tal poderia jurar que não durou mais que algumas frações de segundo.





Executar o serviço sujo dos outros, antes de um trabalho, era um prazer que Ritsuko sentia e uma honra ao seu Sensei.

Deixou a rua que ligava a Avenida, faltavam 3 horas para o amanhecer. Tão furtiva e leve quanto uma sombra, misturou-se a escuridão novamente. Limpou a lâmina de sua katana e da sua bokken. Aprendera que a destreza dos movimentos não era somente uma arte desenvolvida pelo seu Kenjutsu, fazia parte do seu karma.



Rita Ellert